A Infundada Geografia Espacial

Um dia desses um amigo me perguntou o que achava do fenômeno recorrente dos bairros da zona norte, que consiste no fato das mulheres de lá se vestirem como as da zona sul. Entre discussões dali e reflexões de cá, denominei tal fenômeno de Infundada Geografia Espacial. 

A Infundada Geografia Espacial pode ser facilmente presenciada nas ruas. É quando, por exemplo, em uma plena noite de sexta-feira se vê uma moça bem arrumada e maquiada, se deslocando da zona norte para ir a um barzinho da zona sul. Por mais que seus recursos financeiros sejam extremamente limitados, ela demonstra estar contextualizada em uma classe muito além daquela a qual realmente pertence, incorporando e transparecendo de fato pertencer ao bairro rico. Assim, a moça consegue impressionar postando fotos de locais fora da realidade de seu círculo social majoritário ou, quem sabe, até mesmo paquerar um homem que verdadeiramente resida naquela zona sul. 

O fenômeno também acontece nas redes socais, quando a pessoa residente em uma cidade menos desenvolvida, indica em seu perfil que é residente de outra mais desenvolvida.

Inúmeros fatores contribuem para a massificação da Infundada Geografia Espacial, entre eles pode-se destacar a imposição profissional da área comercial e de outras que trabalham diretamente com o público. Neste caso, o fenômeno ocorre quando a loja de grife localizada em uma região de alto poder aquisitivo, contrata vendedoras do subúrbio com o pré-requisito de se vestirem como as potenciais clientes do estabelecimento, ocasionando assim um conflito social e comportamental que quando superado, pode gerar a necessidade de querer e de pensar pertencer a esse contexto embutido. Em outros casos, a baixa autoestima pelo bairro ou cidade em que se vive, faz com que seu habitante veja como indispensável indicar e fazer parecer que mora em outro lugar, desde que este seja mais desejado pelos seus amigos ou colegas de trabalho. Há também o sentimento de inferioridade, atrelado aos fatores já citados ou atuante exclusivamente, capaz de provocar crenças e pensamentos que remontam à necessidade de parecer possuir bens materiais para ser aceito por um determinado nicho social.  

A infundada geografia espacial não é um fenômeno contemporâneo, ocorre há séculos. E a identificação e o entendimento do mesmo não devem impedir que a pessoa busque o seu desenvolvimento econômico-social, mas sim fazer refletir nas diversas formas que a sociedade pode usurpar a identidade e a personalidade de alguém ao ponto dela dissimular o seu contexto social de origem. A percepção de que se é único e especial, independente de onde se resida e dos lugares que cotidianamente costuma frequentar, faz com o sujeito valorize a sua personalidade e tenha esta como base para ser aceito em qualquer meio social (seja o da zona norte ou o da zona sul). O conhecimento histórico a cerca do bairro e da cidade onde se vive contribui para que exista o autoestima pela região, e a participação política pode fazer com que esse nobre sentimento seja mantido, para isso é importante frequentar sessões de sua câmara municipal, cobrar os políticos eleitos as suas promessas de campanha e sugerir ideias para elevar a qualidade de vida do seu bairro. 


"Vez por outra ia para a Zona
Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de jóias e
roupas acetinadas - só para se mortificar um pouco.
É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e
sofrer um pouco é um encontro."
  - Clarice Lispector

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