A Alma Encantadora das Ruas - Livro


Autor: João do Rio
Editora: Cidade Viva
Páginas: 488
Publicação original: 1908
Edição: 2010
Gênero: Crônicas, contos

Sinopse: Eleito em 2009 pela Revista Bravo! como entre os cem livros essenciais da literatura brasileira, retrata a cultura singular e única da cidade do Rio de Janeiro nos tempos do governo do presidente Rodrigues Alves, sendo publicado em 1908. Seu autor expressa em ricos detalhes a forma de viver, as dificuldades e tendências da época. Aborda o modo precário de sobrevivência dos negros, a fome, pobreza, imigração, economia, influência da igreja Católica na sociedade. É um verdadeiro diário escrito por um pioneiro do jornalismo investigativo. Esta edição faz parte do projeto promovido pela Light S.A e Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro em parceria com o Instituto Cultural Cidade Viva (ICCV), que através da Lei Estadual de Incentivo e Cultura criou o projeto de lançar em versão bilíngue 10 livros de autores que descreveram o espírito carioca nos últimos 200 anos.

Avaliação: Ótimo (Ruim, Regular, Bom, Ótimo)

Inicialmente, a única razão de ter escolhido esse livro foi por ser bilíngue, um livro em duas línguas (português e português) é raro nas bibliotecas. Quando vi o título, imaginei que se tratasse de alguma alma que descreve as ruas com certo mistério e suspense. Nas primeiras páginas, minha vontade foi desistir e devolvê-lo, até então não tinha lido a introdução em português - estava ansioso para ir treinando o meu inglês. Ao ler sobre a obra, vi o quanto minha ignorância pode me fazer ser tolo. O tal João do Rio nada mais é que o precursor do jornalismo investigativo do Brasil, iniciando seu trabalho nas ruas do Rio de Janeiro no início do século XX. Também ganhou notoriedade como cronista, crítico de teatro, articulista, editor, colunista, diretor de jornal e empresário jornalístico. Revolucionou a forma de escrever notícias, ajudou na formulação de diversos jornais importantes (fundou A Pátria), tendo participado de articulações com Irineu Marinho na criação do núcleo inicial do O Globo.

O livro nada mais é do que uma importantíssima descrição real sobre a vida nas ruas do Rio de Janeiro no início da década de 1900, publicado em 1908. Retrata a situação de miséria dos negros, o lixo, a miséria, exploração dos imigrantes e a falta de engajamento político para solucionar problemas que perduram até hoje como as reformulação das situações carcerárias, que na época já era superlotada e que misturavam pequenos infratores - até mesmo crianças - com assassinos e ladrões de reputação nacional: 

"Encontro ao lado de respeitáveis assassinos, de gatunos conhecidos, na tropa lamentável dos recidivos, crianças ingênuas, rapazes do comércio, vendedores de jornais, uma enorme quantidade de seres que o desleixo das pretorias torna criminosos. Quase todos estão inclusos, ou no artigo 393 (crime de vadiagem), ou no 313 (ofensas físicas). Os primeiros não podem ficar presos mais de trinta dias, os segundos, sendo menores, mais de sete meses. Os processos, porém, não dão custas, e as pretorias deixam dormir em paz a formação de culpa, enquanto na indolência dos cubículos, no contato com o crime, rapazes dias antes honestos, fazem o mais completo curso de delitos e infâmias de que há memória."


Trecho que acompanha uma batida policial em uma das dezenas hospedarias para a classe baixa da cidade:

"Trepamos todos por uma escada íngreme. O mau cheiro aumentava. Parecia que o ar rarevava, e , parando um instante, ouvimos a respiração de todo aquele mundo como o afastado resfolegar de uma grande máquina. Era a seção dos quartos reservados e a sala das esteiras. Os quartos estreitos, asfixiantes, com camas largas antigas e lençóis por onde corriam percevejos. A respiração tornava-se difícil...Completamente nua, a sala podia conter trinta pessoas, à vontade, e tinha pelo menos oitenta velhas esteiras atiradas ao assoalho. Os fregueses dormiam todos - uns de barriga para o ar, outros de costas, com o lábio no chão negro, outro de lado, recurvados como arcos de pipa. Estavam alguns vestidos. A maioria inteiramente nua, fizera dos adrajos travesseiros. Erguendo a vela, o encarregado explicava que ali o pessoal estava muito bem, e no palor de halo da luz que ele erguia, eu via pés disformes, mãos de dedos curvos, troncos suarentos, cabeças numa estranha lassidão - galeria trágica de cabeças embrutecidas, congestas, bufando de boca aberta... De vez enquando um braço erguia-se no espaço, tombava; faces, em que mais de perto o raio de luz batia, tinham tremores súbitos - e todos roncavam, afogados com sono."


Um dos relatos mais curiosos foi os primórdios das tatuagens - não tinha ideia que já naquela época as pessoas faziam desenhos e símbolos no corpo de modo como uma tendência entre determinadas classes sociais:

" - Quer marcar?
Era um petiz de doze anos talvez. A roupa em frangalhos, os pés nus, as mãos pouco limpas e um certo ar de dignidade na pergunta. O interlocutor, um rapazola louro, com uma dourada cara de carne de adolescente, sentado em uma porta, indagou:
- Por quanto?
- É conforme - continuou o petiz. - É inicial ou coroa?
- É um coração!
- Com nome dentro?
O rapaz hesitou. Depois:
- Sim, com nome: Maria Josefina
- Fica tudo por uns seis mil reís.
Houve um momento em que se discutiu o preço, e o petiz estava inflexível, quando vindo do quiosque da esquina um outro se acertou.
- Ó moço, faço eu; não escute embromações!
- Pagará o que quiser, moço.
O rapazola sorria. Afinal resignou-se, arregaçou a manga da camisa de meia, pondo em relevo a musculatura do braço. O petiz tirou do bolso três agulhas amarradas, um pé de cálix com fuligem e começou o trabalho. Era na rua Clapp, perto do cais, século XX... A tatuagem! Será então verdade a frase de Gautier: 'o mais bruto homem sente que o ornamento traça uma linha indelével de separação entre ele e o animal, e quando não pode enfeitar as próprias roupas recama a pele'?"


Também cita as crianças pedintes de esmolas:

"Há no Rio um número considerável de pobrezinhos sacrificados, petizes que andam a guiar senhoras falsamente cegas, punguistas sem proteção, paralíticos, amputados, crias de família necessitadas, simples vagabundos à espera de complacências escabrosas, um mundo vário, o olhar do crime, o broto as árvores que irão obumbrar as galerias de detenção, todo um exército de desbriados e de bandidos, de prostitutas futuras, galopando pela cidade à cata do pão para exploradores...Esse bando, porém, é evidentemente defeituoso; ganha dinheiro, como se estivesse empregado para sustentar a família. Há o outro, o maior, o infindável, que a polícia parece ignorar, a exploração capaz de emocionar os delegados nos dramalhões, a indústria da esmola infantil exercida por um grupo de matronas indignas e de homens criminosos, as criancinhas implumes, piolhentas e sujas, que saem para a rua às varadas, obrigadas ao sustento de casas inteiras; há a exploração lenta, que ensina os pequenos a roubar e as meninas a se prostituírem; o caftismo disfarçado, que espanca, maltrata e extorque."


Como um todo, mostra de forma clara e direta que a sociedade brasileira ainda não se desenvolveu muito passados mais de cem anos. Ainda somos uma sociedade que não impõe seus diretos, exploradas pelos políticos, sem cultura, educação e ordem. Também é curioso o saudosismo pelo Império após quase vinte anos da Proclamação da República, revelando que a população já era manipulada - o maior período de crescimento econômico e cultura no Brasil foi na época de Dom Pedro II. Este foi deposto e exilado do Brasil por uma proposta que prometia melhores resultados. A corrupção tomou conta do país e anos depois as pessoas começaram a perceber que haviam sido enganadas pelos republicanos - Continuamos a ver ruas sujas, pessoas que vivem de esmolas e viciadas, negros das periferias e favelas, sofrendo preconceito e discriminação, roubando e matando pela ineficiência do Estado em fornecer educação, prepará-los para o mercado de trabalho e proporcionar perspectiva de vida. Como disse acima, nunca havia falado falar em João do Rio. Por que será que as crianças não aprendem nas escolas quem foi ele? Por que este livro não é comentado e debatido nos temas diversos nos programas de televisão e na cultura em geral? É preciso fazer curso de graduação em Comunicação Social para saber quem foi João do Rio? Não sabemos muito bem e não fazem questão de nos dizer porque muitas coisas continuam as mesmas. João do Rio viveu apenas quatro décadas (1881-1921), era mulato e homossexual. Ao falecer de infarto fulminante, estava muito acima do peso e dias antes foi duramente espancado por defender os imigrantes portugueses que estavam sob o risco de serem proibidos de viverem como pescadores no Brasil. Porém seu enterro figura entre os mais célebres da história do Rio de Janeiro, tendo comparecido mais de cem mil pessoas, de todas as classes sociais e etnias.

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Um comentário:

  1. ... um livro em duas línguas (português e português) é raro nas bibliotecas.

    Pegadinha? rsss

    Parece ser interessante;

    Histórias, estórias e outras polêmicas

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