A Ilha da Boa Viagem - Niterói

 

Protagonista ilustre como cartão postal de Niterói (RJ), a Ilha da Boa Viagem teve o seu primeiro registro em uma carta holandesa de Dierick Ruiters escrita em 1618 - apenas 45 anos depois da fundação da Vila de São Lourenço dos Índios (1573), que posteriormente passou a ser denominada como Vila Real da Praia Grande (1819) e Nictheroy (1835), atualmente Niterói. A ilha possui uma capela à Nossa Senhora da Viagem construída em 1650 sob a ordem do então Provedor da Fazenda Real, Diogo Carvalho Fontoura. Posteriormente a capela passou por sucessivas reconstruções e reformas (1734, 1884, 1909, 1934), conseguindo mantê-la como um marco arquitetônico de grande importância histórica. O fato de ter como padroeira a Boa Viagem fez com que os viajantes do mar fizessem da ilha um local de peregrinação, há relatos de que os viajantes do mar deixavam enormes quantidades de ouro como pagamento de promessas e faziam uma pomposa procissão marítima 1 2 .    


Édouard Hildebrandt - vista da Ilha da Boa Viagem pintada em 1848 - óleo sobre tela





Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem - construída em 1650

Altar da igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem

Interior da Igreja

Eu com o padre Carlos do Nascimento (Carlinhos)



Imagens gravadas no interior e na parte externa da igreja da Ilha de Boa Viagem:



Coral italiano cantando "Va, Pensiero", na igreja da Ilha da Boa Viagem:



Em tempos em que a proteção da Baía de Guanabara era uma das principais preocupações do Reino de Portugal devido aos riscos iminentes de ataques de países interessados em conquistar o litoral fluminense, não tardou para que sua posição estratégica fizesse com que a Ilha da Boa Viagem abrigasse uma bateria de artilharia, servindo como complemento bélico para as fortalezas. Durante a Revolta Armada (1893) a ilha foi duramente castigada por tiros de canhões, deixando o fortim em ruínas 3. Somente foi reconstruída em 1909, pela Associação Protetora dos Homens do Mar. Em 1911, o governador Oliveira Botelho leva energia elétrica até a ilha. A Associação Protetora dos Homens do Mar acabou sendo extinta em 1918, fazendo o que a Marinha assumisse a ilha, recolhendo a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem ao hospital da corporação. Com os fortes ventos do litoral, maresias e chuvas associados com a falta de manutenção, fez com que não tardasse para que a igreja novamente se tornasse ruínas. Diante do tal fato, o então prefeito de Niterói Gustavo Lira (1932 - 1935) assume a reconstrução da igreja e a obra é finalizada em 1934, com procissão marítima trazendo a imagem da padroeira novamente para a ilha 4.


Ruínas do antigo forte


Marco da Marinha do Brasil
Vista da Ilha da Boa Viagem para a entrada da Baía da Guanabara - posição estratégica

A fim de evitar novo abandono, em 1937, a Marinha entrega a ilha aos Escoteiros do Mar, sob os cuidados de Benjamin Sodré (o Velho Lobo), para ser um Campo Escola Nacional dos Escoteiros do Mar. A importância histórica, arquitetônica e artística da igreja foi oficializadas em 1938, com o seu tombamento realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Brasileiro 4 5.

Visita do cardeal Dom Jaime Câmara, em 14 de julho de 1947

Escoteiros em uma missa do ano 1959


A ilha faz parte do bairro que leva o seu nome, Boa Viagem, e compõe a região da zona sul de Niterói. Por ter sido concedida, em 1937, aos cuidados de Benjamin Sodré (O Velho Lobo), de certa forma, a ilha passou a ter uma espécie de "dono". Isso fez com que inúmeras intervenções de interesses especulativos da iniciativa privada e imobiliária fossem impedidas, pois somente a edificação da Capela é tombada, os demais prédios construídos pela Marinha e que são utilizados pelos escoteiros, são mais recentes, construídos em 1940, e podem sofrer modificações. Por outro lado, a visitação à ilha só pode ser realizada em dias de missa, que sempre acontecem no quarto domingo de cada mês, inibindo o potencial turístico que a ilha oferece. Uma expressiva parcela dos niteroienses nunca foi à ilha e desconhecem a sua importância histórica, arquitetônica, artística e natural. Tal fato se deve às restrições de visitação nos dias em que não existe missa, o que não ocorre nas fortalezas (ainda sob os cuidados do Exército), que cobram um valor monetário popular para a visitação.








Leia também: O Solar do Jambeiro - Niterói

Quanto aos Escoteiros do Mar, é impossível não reconhecer que o movimento enfraqueceu consideravelmente nas últimas décadas e infelizmente, ao observar a inexpressiva quantidade de escoteiros, conclui-se que o movimento encontra-se em situação agonizante. Segundo a Organização Mundial de Escotismo, em 2010, existiam apenas 59.057 mil escoteiros registrados no Brasil, número baixo comparado a estimativa populacional do IBGE em 2010, que registrou 202.768.562 habitantes no território brasileiro 6 7. A baixa quantidade de integrantes no movimento, consequentemente, faz com que o escotismo não consiga realizar a manutenção da ilha e dos prédios, com exceção da igreja, que teve a última grande reforma custeada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em caráter emergencial para evitar o arruinamento da edificação. As obras foram concluídas em 2013 e as missas voltaram a ser realizadas, porém a União dos Escoteiros do Brasil (UEB) ainda não definiu os projetos que viabilizem a captação de recursos financeiros para a reforma das edificações da ilha que ainda não foram tombadas como Patrimônio Histórico, que são as construídas na década de 1940 , utilizadas pelos escoteiros.
 











Os cuidados da ilha que pertenciam ao Benjamin Sodré foram herdados por a sua filha, Maria Peróla Sodré (nascida em 23 de novembro de 1922 - completará 93 anos em 2015), que assim como veta projetos que possam ameaçar o equilíbrio ecológico como, por exemplo, a construção de um hotel, também não permite a implantação de projetos que atendam a vocação turística do local como símbolo histórico. A matéria publicada pelo jornal O Dia, em 16 de julho de 2014, reverencia o modo como Maria Peróla Sodré cuida da ilha: "cuida da ilha retratada por pintores do Império como se fosse sua casa" 8. É necessário refletir se tratar um patrimônio histórico, arquitetônico e artístico como se fosse a sua própria casa, fazendo com que a população não tenha conhecimento da importância do local, é o mais coerente tratando-se de um país democrático. A ilha poderia dispor de uma cafeteria e um museu, possibilitando a entrada de visitantes mediante o pagamento de uma quantia popular e acessível, o que geraria recursos para a manutenção da ilha e a divulgação do Movimento dos Escoteiros do Brasil. Além disso, exposições e eventos culturais poderiam ser realizados pela Secretaria de Cultura e Fundação de Arte de Niterói (FAN) 9.

Maria Pérola Sodré


O Movimento dos Escoteiros do Brasil é uma ótima alternativa para lazer, aprendizagem e conhecimento. Se você tem interesse em ser um escoteiro, visite o site:  http://www.escoteiros.org.br/



As fotografias com a marca d'água "Testahy" foram tiradas por mim no dia 28 de outubro de 2014.

Fontes: 

1http://www.iphan.gov.br/ans.net/tema_consulta.asp?Linha=tc_hist.gif&Cod=1646

2 http://ddp-fan.com.br/bairros/boa_viagem.htm

3 http://www.riodejaneiroaqui.com/portugues/ilha-boa-viagem-igreja.html

4 http://www.niteroiturismo.com.br/port/aondeir_igrej_nsboaviagem.htm

5 http://www.escotismope.jex.com.br/noticias+nacionais/30+anos+sem+benjamin+sodre+o+velho+lobo+e+120+anos+de+seu+nascimento

6 http://www.aep129.com/index.php?option=com_content&view=article&id=133:numeros-mundiais&catid=44:movimento-escotista-historia-e-curiosidades&Itemid=138

7 http://www.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-202768562-habitantes-diz-ibge,1550900

8 http://odia.ig.com.br/niteroi/2014-06-13/ex-professora-cuida-da-ilha-de-boa-viagem-em-niteroi.html

9 http://www.ofluminense.com.br/editorias/cidades/obras-na-igreja-da-boa-viagem-comecam-em-30-dias

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