Memorial de Convento - Livro

 

Autor: José Saramago
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 357
Publicação original: 1982
Gênero: Romance Histórico
 
Sinopse: Nesta obra, Saramago retrata a personalidade do rei D. João V e narra também a vida de vários operários anônimos que contribuíram na quixotesca construção do Convento de Mafra. Entre esses operários estava também Baltasar, e o romance foca, entre outras coisas, o seu grande amor por Blimunda, mulher dotada do estranho poder de ver o interior das pessoas. Os dois conhecem um padre, Bartolomeu de Gusmão, que entrou na história como pioneiro da aviação. O trio inicia a construção de um aparelho voador, a Passarola, que sobe em direção ao Sol, sendo que este atrai as vontades, que estão presas dentro da Passarola. Blimunda, ao ver o interior das pessoas, recolhe as suas vontades, descritas pelo autor como nuvens abertas ou nuvens fechadas.

Após um dos voos da passarola, Bartolomeu foge para Espanha, perseguido pela Inquisição. Blimunda e Baltasar vão tratando de esconder e de fazer a manutenção à passarola, que estava dissimulada por arbustos em Monte Junto. Um dia, Baltasar ficou preso à passarola, enquanto fazia a sua manutenção, e os cabos que a impediam de se elevar nos céus rebentaram, tendo sido levado pelos ares. A aeronave despenhou-se e Baltasar foi capturado pela Inquisição, acusado de bruxaria. No epílogo da ação, Blimunda recolhe a vontade de Baltasar, enquanto este morre, condenado à fogueira.

Classificação: Ótimo (Ruim, Regular, Bom, Ótimo)
 

Resenha: O leitor que ainda não lera nenhuma obra de Saramago, inicialmente, vai estranhar o seu modo de escrever, que é totalmente diferente se tratando da nossa nobre língua portuguesa. Palavras difíceis, por serem incomuns no português brasileiro ou por se remeterem ao estilo antigo da língua, fazem com que o dicionário seja indispensável para a compreensão do enredo. Esse modo diferente e difícil de escrever é, na verdade, a grande marca do autor, fazendo-o ser considerado como um mestre no tratamento da língua portuguesa. O estilo de Saramago é oral, onde a vivacidade da comunicação é mais importante do que a correção ortográfica da língua escrita. As letras se desenrolam em frases e períodos compridos, de modo peculiarmente não convencional. Assim, os diálogos dos personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, não existindo sinais de interrogação, exclamação ou travessões em seu estilo literário, fazendo existir um intenso fluxo de conversações ao ponto do leitor não saber determinar se certos diálogos foram reais ou pensamentos do autor. 

"Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente a sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábio que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem, Então D. João, o quinto o seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz claramente e ouvisse que estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa da rainha." (pg. 14)

A história se desenvolve através de vastos detalhes precisos que narram a postura e o comportamento da sociedade do seu tempo - o século XVIII - promovendo ao leitor uma viagem ao passado glorioso do povo português, época de grande fartura da coroa através da exploração das suas colônias, principalmente do ouro extraído do Brasil, e da miséria dos militares que por muitas vezes travaram batalhas com os espanhóis na Guerra da Sucessão Espanhola. Em uma delas, o soldado Baltasar Mateus, aos 26 anos, perde sua mão esquerda e é abandonado pelo exército. Ficando na miséria e sobrevivendo através de esmolas, consegue chegar a Lisboa, onde conhece Blimunda de Jesus, com 19 anos de idade. Os dois se conhecem no momento em que um auto-de-fé da Inquisição condenava algumas pessoas acusadas de heresia, entre elas estava a mãe de Blimunda, que por ter  visões foi condenada a açoitamento público e a oito anos de exílio em Angola.

"Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres  debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita do Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse chegar a toda parte  ou oferecer o espetáculo edificante a toda a cidade, aquele que ali vai é Simeão de Oliveira e Sousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo Ofício declarava ser qualificador, e sendo secular dizia missa, confessava e pregava, e ao mesmo tempo que isto fazia proclamava ser herege e judeu, raro se viu confusão assim, e para ser ela maior tanto se chamava padre Teodoro Pereira de Sousa como frei Manuel da Conceição, ou frei Manuel da Graça, ou ainda Belchior Carneiro, ou Manuel Lencaste, quem sabe que outros nomes teria e todos verdadeiros, porque deveria ser um direito do homem escolher seu próprio nome e mudá-lo cem vezes ao dia, um nome não é nada, e aquele é Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portel, que fingia visões para ser tido santo, e fazia curas usando bênçãos, palavras e cruzes, e outras semelhantes superstições, imagine-se, como se tivesse sido ele o primeiro, e aquele é o padre Antônio Teixeira de Sousa, da ilha deS. Jorge, por culpas de solicitar mulheres, maneira canónica de dizer que as apalpava e fornicava, decerto começando na palavra do confessionário e terminando no acto  recato da sacristia, enquanto não vai corporalmente acabar em Angola, para onde irá degradado  por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova,  que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola, e tendo ouvido as setenças, as minhas e mais de quem comigo vai nesta procissão, não ouvi que se falasse da minha filha, é o seu nome Blimunda, onde estará, onde estás Blimunda, se não foste presa depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de melancias e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que não me conhece e despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e não pode falar, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, poder meu, pelas roupa soldado, , pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam de Sete-Sóis." (pgs. 50 e 51)

Críticas à Igreja Católica, à ostentação da monarquia para impor seu poder e a hipocrisia da sociedade mesclada com a sua ignorância, estão presentes em cada página. Algumas delas provocam profunda reflexão por saber que um dia as pessoas já foram piores do que são, tristeza ao constatar que em certos momentos continuam sem evolução significante, enquanto que em outras é possível se pegar em risos. São diferentes doses em uma histórica única, contadas através de diferentes personagens, em uma mistura marcante e chocante que só José Saramago sabe fazer. A construção da máquina de voar, planejada pelo padre Bartolomeu de Gusmão e que fica a cargo do casal, resulta em um ar de suspense. Ainda assim, o romance de Sete-Sóis e Blimunda é o eixo principal. É difícil não ser conquistado com o drama e as aventuras desse casal, leal até o fim. No final das contas, o convento de Mafra passa a ser apenas um mero detalhe, um dos inúmeros bem colocados pelo autor. Curiosamente, o mesmo é de notória imponência e beleza arquitetônica, sendo um dos finalistas no concurso Sete Maravilhas de Portugal. Sua construção teve início em 1717 e foi terminada em 1730, tendo  o total de 52.000 trabalhadores.




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